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Sobre humildade.

  • Foto do escritor: Gustavo Engelmann
    Gustavo Engelmann
  • 7 de jan. de 2022
  • 7 min de leitura

O que é ser uma pessoa humilde para você?


Alguém que não se gaba dos seus feitos e méritos a todo instante, e não vive buscando constantemente atenção e reconhecimento daqueles que a rodeiam, talvez até os renegando e se distanciando deles?


Ou então, talvez, alguém que não precisa se reafirmar a cada tanto, gritando aos quatro ventos o quanto ela é boa, gentil, amável ou incrível?


Pode ser também aquela pessoa que faz e age a partir do seu coração, sem esperar nada em troca, visando somente o resultado daquela ação?


No dicionário, dentre algumas definições, podemos encontrar que humildade “refere-se à qualidade daqueles que não tentam se projetar sobre as outras pessoas nem mostrar ser superior a elas”.


Mas, indo um pouco além dessa batalha de egos, podemos encontrar também a definição de que humildade é “a virtude que consiste em conhecer as suas próprias limitações e fraquezas e agir de acordo com essa consciência”.


Ou seja, podemos dizer que, basicamente, humildade é a habilidade de não querer ser algo que você não é, e não se achar melhor que os outros por aquilo que você é ou fez.


No bom português: seja você mesma, sem se achar de mais por isso. Cada um tem seu caminho e o seu não é melhor do que o de ninguém.


Eu quero contar uma história para você, sobre como eu aprendi o valor da humildade.


Desde 2014, quando decidi botar uma mochila nas costas e sair por aí para me reconhecer e me reconectar na minha verdade, ouço, de tanto em tanto, daqueles que conhecem um pouco mais da minha história de vida que sou uma pessoa muito humilde.


É verdade que para poder viver essa aventura e algumas outras eu tive que abrir mão de algumas coisas que poucas pessoas no mundo tem coragem ou vontade genuína ao ponto que as faça se movimentar, pelo menos é isso que acontece na minha bolha social.


Conforto, segurança, comida na mesa, despensa cheia, carro na garagem, rede de suporte, estabilidade financeira...muitas das coisas que a maioria das pessoas buscam, sonham e idealizam em suas vidas eu simplesmente, de uma hora para outra, escolhi deixar de lado por um tempo.


Confesso que em nenhum momento olhei esse movimento como se estivesse abandonando ou perdendo algo de muito valor. Na época eu só conseguia ver aquilo que estava buscando.


Talvez, como tive essas coisas durante tanto tempo na minha vida, tipo desde que nasci, não me afetava tanto o fato de não ter isso por alguns meses ou talvez anos. Eu já sabia como era, eu já sabia o quanto aquilo valia de verdade para mim.


Ao longo das minhas andanças passei por alguns lugares paradisíacos. Lugares que você talvez nem imagine que existam aqui no Brasil. Nesses lugares não foram raras as vezes em que alguém, quando me ouvia dizer que era de São Paulo, dizia: - "Oxe, e saiu de lá para vim para esse fim de mundo?".


Vai dizer que você não gostaria de morar aqui perto?


Acho muito bonito como na vida tudo depende. Desde os meus 15 anos eu, de verdade, só conseguia olhar para frente e para todo o universo de possibilidades que estava a minha espera assim que saísse de São Paulo.


O Licuri, por outro lado, Índio Pataxó da Aldeia Bojigão, que conheci lá em 2014, enquanto ele ainda tinha seus 13 anos, já sonhava mesmo era em ir para lá e viver tudo que a cidade da garoa tinha a oferecer.


Saí de São Paulo decidido a abandonar a babilônia, e repetia isso para mim diariamente: “vou sair dessa loucura, isso não é para mim. Preciso encontrar meu lugar no mundo.”


Eu reconheci, ainda muito jovem, que uma das minhas maiores fraquezas era o fato de estar distante e desconectado da natureza na sua mais pura essência. Sem o passo do reconhecimento não existe movimento.


Viajando, a vida me lembrou que para viver o sonho era preciso ganhar dinheiro e que eu precisava urgentemente ressignificar minha relação com ele. Sim, eu, o jovem de 24 anos, que com 18 fazia mais de 10 mil reais em freelas de edição e animação de vídeo em 1 semana mas sem ter que pagar nenhuma conta ou ser responsável por praticamente nada da vida adulta, me vi, pela primeira vez, em um momento em que a responsabilidade da manutenção do meu próprio caminho estava totalmente nas minhas mãos.


A água bateu na bunda.


Sei bem que existem pessoas que passam por isso aos 14, 16, 18 anos. Não me entenda mal. Eu mesmo trabalho desde os 16. Mas o ciclo de precisar trabalhar para pagar as contas, comprar comida e seguir vivendo, foi só aos 24 mesmo. Fui privilegiado, e ainda sou.


Em meio a jornada da vida, escolhi percorrer parte do caminho onde esse privilégio não estivesse ali. Não que eu não fosse grato a ele, mas sentia que ele limitava minha visão para algumas coisas, e eu queria ver como era a “vida de verdade”, sem saber, à época, que a vida é de verdade quando vem do coração, seja ela como for.


Seguindo o caminho escolhido por mim, depois de algumas semanas de viagem fui me aventurar e conquistar meu dinheiro. Comecei vendendo pastel vegetariano e vegano, e logo fui para o lanche e suco. Conheci uma menina e juntos começamos a tocar samba em bares e praças, eu no pandeiro e ela na voz e violão. Com ela viajei de carona e cruzei o brasil dormindo em praças e rodoviárias, até o dia que ela decidiu seguir seu caminho.


Com a partida dela aprendi a fazer e comecei a vender artesanato nas praias da Bahia e logo que pude me joguei para as montanhas...olhando para trás, vejo que a escolha de deixar de lado toda uma vida estável, confortável e segura, coisa que todo mundo busca para si, para me reencontrar, foi uma das melhores escolhas que pude fazer na minha vida.


Porém, como uma sombra que caminhava ao meu lado, minha história, vivências e privilégios ainda faziam parte de mim. No meu jeito de andar, falar, me vestir, me portar...as vezes até sentia que ela chegava antes mesmo de mim.


Em meio aos malucos de br, chamados erroneamente de hippies pelas pessoas desavisadas, me destacava. Uns dormiam no papelão, eu dormia na barraca. Uns usavam trapos rasgados e imundos, eu usava roupas de marca e tênis. Todos com seus dreads, eu com a minha cabeça raspada. Uns mal sabiam falar, eu era fluente em inglês e português e ainda arranhava o espanhol. Uns sequer família ou casa tiveram na infância, enquanto eu...


Ali era um estranho no ninho. Aos olhos julgadores, mais um playboy querendo ser maluco.

Ainda me lembro como se fosse ontem, eu no auge dos meus 15 anos ouvindo um adulto me dizer: “Gustavo, quem sabe chegar no sapato, chega em qualquer lugar”.


Ele estava falando sobre ser humilde.


É muito estranho, ainda hoje, quando lembro que sofri preconceito em meio aos malucos por ter vindo de um “lugar melhor”. Claro, não foi de todos, mas eu claramente podia ver que eles se sentiam superiores a mim por terem sofrido mais na vida. Olha que coisa mais louca! Era um misto de inveja, raiva, rejeição e pitadas de desprezo.


Ali aprendi que a máxima de Paulo Freire “sem instrução, o sonho do oprimido é se tornar opressor” também diz muito sobre humildade.


Eles literalmente se sentiam mais merecedores do que eu de estar ali na rua, vendendo e vivendo da sua arte e da sua manifestação individual aqui na terra. Eu estar ali era quase um insulto a história deles.


Mas a humildade, assim como a verdade é uma coisa muito louca, ela toca corações.


Os poucos que me deram espaço podiam ver minha verdade, e graças a isso fui abrindo espaço em meio a corações desconfiados e arredios. Assim, fui “chegando no sapato” e conquistando meu lugar.


Hoje já não busco me distanciar daquela “sombra” que me acompanhava. Na verdade, hoje entendo que em algum momento eu mesmo vi os meus privilégios como algo negativo ou talvez até um demérito. Em algum momento acreditei que para ser humilde eu devia conquistar tudo do zero.


Ao longo do caminho sigo entendendo e aprendendo a como me relacionar, de forma amorosa e verdadeira, com todas as minhas condições, sejam elas fatores limitantes ou fatores que facilitam minha vida.


Lembra do que eu falei no começo do texto? Que humildade é “a virtude que consiste em conhecer as suas próprias limitações e fraquezas e agir de acordo com essa consciência”.


Entendi que as pessoas, às vezes, encontraram na arrogância, soberba e falsa superioridade intelectual, financeira ou até mesmo de vivência, ótimas ferramentas para esconder suas limitações, fraquezas e dores.


Humildade não tem nada a ver com dinheiro, status ou poder. O mendigo e o bilionário têm a mesma capacidade de serem ou não humildes. Não é sobre o que você tem, mas sobre o que você é e o que você escolhe ser.


Quando hoje em dia me dizem: “você é muito humilde por ser o patrão da obra e cavar os buracos da fundação junto com os ajudantes”. Não sinto isso. Sinto que não faço mais que minha capacidade e responsabilidade. Se a casa é minha, ninguém, além de mim tem mais responsabilidade sobre a construção dela do que eu. Concorda?


Quando conto minha história e dizem: “você foi muito humilde de abrir mão de tudo que tinha pra virar hippie e vender artesanato na rua”. Não sinto isso. Tudo o que tinha não era meu de verdade. O valor que dou a um grão de arroz ou feijão hoje em dia, seja ele conquistado por mim ou dado a mim através de um gesto de amorosidade, seria totalmente diferente se não tivesse saído da zona de conforto e da bolha social em que nasci e cresci e tivesse assumido algumas responsabilidades e quebrado alguns padrões, inclusive do que era esperado de mim pelos meus pais.


E como ser humilde, então?


Para mim, o primeiro passo rumo à humildade é sobre reconhecer que cada um tem seu caminho, suas escolhas e suas responsabilidades, e que nenhum caminho, nenhuma escolha e nenhuma responsabilidade são melhores ou piores umas das outras. Nada é por acaso.


Humildade, para mim, é agir com sua verdade e amorosidade em prol do seu caminho, sem olhar para o lado para comparar ou julgar. Nada mais importa que não seja o seu caminho.


Quando se está por inteiro nele, o seu ser transborda e toca corações.


Você pode conquistar o mundo e ser humilde. Você pode perder o mundo e ser arrogante.


Não é sobre o que você tem, nunca foi. É sobre o que você quer ser.


Sempre com amor,

Gustavo Engelmann

 
 
 

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