Sobre a Impermanência
- Gustavo Engelmann

- 18 de jan. de 2022
- 8 min de leitura
Se você pudesse escolher uma coisa na sua vida para durar para sempre, o que seria?
Talvez seja a presença do seu pai ou da sua mãe, ou então a vida eterna do seu cachorro.
Pode ser também um relacionamento, um grupo de amizade, um sentimento, como amor, contentamento, felicidade ou paz, por exemplo.
E aí, o que você agarraria e nunca mais soltaria se pudesse?
Agora responda essas perguntas antes de seguir sua leitura:
Por que você escolheu isso? O que isso te oferece? Segurança? Pertencimento? Estabilidade? Conforto emocional ou material? O que você ganha escolhendo isso?
A resposta para essa pergunta é também, muito provavelmente, aquilo que você mais teme perder na sua vida. E por mais doloroso que isso seja, você sabe, ou talvez venha a saber agora, que em algum momento, o dia de lidar com essa perda vai chegar.
A questão é: você estará preparada para isso?

Demorei alguns anos da minha vida até estar preparado para me deparar e me aprofundar na ideia, filosofia e conceito de que tudo muda o tempo todo, independente do que eu quero.
Digo “estar preparado” porque até então eu vivia, talvez, como a maioria da sociedade ainda vive: preferindo olhar para o lado e ignorando esse fato, vivendo acreditando no conto de fadas do “felizes para sempre”, confortando o coração através da idealização da eternidade de tudo o que é bom e agradável, mesmo sofrendo e morrendo um pouco por dentro a cada novo fim de ciclo, sempre na expectativa de que aquilo nunca mais irá acontecer.
Foram alguns términos de relacionamento, sempre adiados ao máximo é claro, onde acreditei que nunca mais encontraria ninguém que me fizesse tão feliz, imaginando o futuro sozinho e sem amor!
Me lembro também das mudanças de colégio, onde tinha a certeza de que não faria amizades tão verdadeiras ou que não teriam crianças tão legais quanto no colégio anterior, e tinha certeza que tudo seria horrível ali naquele novo lugar.
E quando fui demitido a primeira vez então, que achei que nunca mais alguém me daria uma oportunidade tão boa quanto aquela, mesmo sendo um emprego de merda, com um salário de merda!
Isso sem falar quando os conceitos, verdades, valores e ideias mudavam de uma hora para outra conforme ia crescendo e aprendendo mais sobre a vida, e ao mesmo tempo em que as coisas deixavam de fazer sentido para mim, eu tinha que escolher se seria visto como sem palavra, um maria-vai-com-as-outras ou como um cabeça dura, que tenta manter a sua posição egóica independente do que for só para não dar o braço a torcer.
Você provavelmente já passou por algumas dessas situações.
Foram tantas finalizações de ciclo experienciadas e vividas na inconsciência, que durante muitos anos, toda vez que chegava o momento de algo acabar ou mudar eram sempre os mesmos sentimentos:
dor, sofrimento e desespero.
Afinal, tem coisas na vida que independente de você acreditar ou não, ter consciência ou não, saber lidar ou não, elas irão acontecer. Os términos e finalizações de relações, experiências, momentos e vivências fazem parte desse grupo, e a única certeza que temos nessa vida desde o dia do nosso nascimento é que tudo um dia irá acabar e encontrar o seu devido fim.
E mesmo assim, se tem uma coisa que fomos ensinados a evitar falar e se aprofundar, é a ideia de que tudo isso aqui um dia acaba. Não sei você, mas meus pais nunca falaram sobre a morte comigo de uma maneira sincera e verdadeira, como se isso realmente fosse acontecer um dia.
Esse tema, que é tão tabu na nossa sociedade, é base essencial para o entendimento e compreensão de um dos conceitos mais libertadores que já me deparei ao longo do meu caminho, e que eu tenho certeza que quanto mais você se aprofundar nele, mais se libertará também.
Não existe liberdade sem o reconhecimento da totalidade em que vivemos e estamos inseridos, e nada permeia tanto a nossa existência como o ciclo da vida e morte.
Ao mesmo tempo que a todo momento infinitos desejos, sonhos, pessoas, romances, verdades, momentos e tantas outras coisas nascem e ganham vida, outros tantos seguem seu rumo e chegam ao fim.
Buda nos ensinou: aquele vive com apego ou aversão a qualquer um dos movimentos naturais da vida está fadado ao sofrimento.
Enquanto uns vivem ansiando pelo fim de algo, como uma doença, uma tristeza, um sofrimento, uma dor ou desconforto, outros tantos vivem esperando o momento de algo como amor, romance, aventura, ou talvez até a própria vida começar a existir.
Sabe o que eles tem em comum? Estão distantes, cada vez mais, do momento presente.
Quem aceita a vida como é não vive olhando para os lados, para frente ou para trás, fugindo da verdade. Aquela que escolhe se libertar para viver o momento aqui e agora com cada vez mais presença e amorosidade pela própria experiência de se estar viva tem a verdadeira opotunidade de viver.
Por outro lado, quem teme o fim vive a temer a própria vida, sempre com medo e receio, fugindo de toda linha de chegada e se esforçando para continuar dando voltas no seu mundo de ilusão, sem perceber que o preço disso é ao mesmo tempo se apegar ao que não existe e deixar de viver o seu próprio caminho.
Um bom exemplo disso são as pessoas que fogem das responsabilidades da vida adulta e vivem como eternas crianças na casa de seus pais até à sua morte, ficando totalmente perdidas e desamparadas quando esse dia finalmente chega.
Ou então pessoas que não aceitam os finais de relacionamentos, e que mesmo tendo consciência que uma grande parte de si já não quer mais estar ali, segue fazendo juras e promessas à pessoa amada, que na verdade já deixou de ser amada a muito tempo, mas ainda é a única ferramenta a disposição para manter sua zona de conforto emocional intacta.
Já dizia Renato Russo: “O pra sempre, sempre acaba”. Mas para que possamos nos aproximar cada vez mais de uma vida liberta e independente, onde os movimentos naturais da própria vida sejam aceitos e acolhidos do jeitinho que eles são, precisamos falar sobre a impermanência.
E é simplesmente impossível falar de impermanência sem falar de aceitação.
Sabe o que a dor do fim de um relacionamento, a dor da morte de alguém que você ama e a maior dor física que você já sentiu na vida tem em comum? Todas elas passam, e ao mesmo tempo todas elas irão acontecer com você em algum momento, independente se você aceitar isso ou não.
A aceitação da impermanência é a aceitação da própria vida como ela é!
Claro, não estou dizendo que basta aceitar que tudo um dia vai acabar que automaticamente não existirá mais apego, sofrimento, dor, tristeza e coisas do gênero.
Mas, posso afirmar com segurança, que através do desenvolvimento de aceitação da impermanência, toda e qualquer experiência proveniente de uma finalização de ciclo, de um desconforto ou de uma infelicidade será muito menos impactante e negativa para você, e ainda se mostrará uma grande fonte de aprendizado e crescimento.
Quando digo que “cada um tem seu caminho”, é um lembrete a mim mesmo que nem todo mundo permanecerá na minha vida até o fim dela e que não tenho controle algum sobre as escolhas e caminhos que as pessoas que amo decidem seguir. Isso tem me ensinado, ao longo dos anos, a aproveitar os instantes valiosos que tenho com cada uma dessas pessoas, e assim o farei.
E quando chegar o momento dessas pessoas seguirem seu caminho, diferente daquilo que nos foi ensinado, isso não será surpresa ou motivo de tristeza, mas sim de celebração!
Aceitação da impermanência é permanecer no seu caminho independente da dor e do desconforto vividos. É saber que a vontade de desistir e persistir irão passar da mesma forma, e o que fica além dessa dualidade é aquilo que você escolhe fazer.
E não existe uma forma mais eficaz de aprender sobre isso que não seja vivendo.
Pena que eficaz não é sinônimo de facilidade.
Dentre os muitos aprendizados sobre impermanência que tive na minha vida, um dos mais fortes e desafiadores foi a minha relação com a casa dos meus pais e a cidade de São Paulo.
Imagina só, desde os meus 15/16 anos eu já tinha vontade de sair de lá e buscar um lugar melhor. Ainda muito novo, não fazia de como ou onde seria esse lugar, mas tinha certeza de que não era na cidade cinza.
Aos 24 anos consegui sair pela primeira vez. Nessa época, inclusive, foi quando comecei a me aprofundar nos estudos de autoconhecimento e consequentemente, da impermanência.
Ao longo dessa minha primeira viagem interna e externa, pude ler um dos livros que mudaram minha vida por completo. “Sidarta”, de Hermann Hesse.
Aceitar que tinha que mudar de camping, hora ou outra, até que era fácil. Cansativo, mas fácil.
Mudar de cidade já era mais desafiador, mas também fluía com leveza quanto mais me fortalecia nos motivos que me faziam seguir em frente. Tudo ia muito bem e muito fácil, para ser sincero, até a hora de voltar para casa.
Mais de um ano havia se passado desde o início da aventura que me levou para longe de tudo e mais perto de mim, e só a ideia de trocar o verde das árvores que permeavam meu caminho pelos prédios cinzas da cidade de pedra me dava calafrios.
Mas, em um momento onde me vi com a barraca, mochila e roupas rasgadas, sem dinheiro e sem ter para onde ir, o que me restava era voltar.
Para mim, naquele momento, essa foi uma das maiores derrotas que já havia passado.
Me lembro que cheguei até a sentir vergonha de mim mesmo!
Queria viajar para sempre. Tudo era tão bom, fluido, verdadeiro, real...pela primeira vez me sentia em conexão com aquele Deus que tanto ouvi falar na minha infância, e voltar para São Paulo era como me despedir dele e voltar para o próprio purgatório na Terra.
“Nada é por acaso”. Era o que me esforçava para lembrar nas vezes em que pensava em pular daquele ônibus que me levou da Bahia a São Paulo em uma longa viagem de 36 horas. Naquele momento a minha vontade era de ficar pelo meio do caminho mesmo, mesmo sabendo que não fazia sentido algum. Eu só queria fugir do que me esperava, mas o unico caminho da vida é para frente.
Entre idas e vindas, foram 5 vezes ao total. A cada uma delas eu me cobrava por estar, mais uma vez, voltando para aquele lugar onde não queria estar, mas ainda sem entender para onde eu queria ir.
O que me restava fazer? Aceitar e agradecer por ter para onde ir!
Sabe aquele emprego que você jurou que nunca mais iria trabalhar, mas se viu de novo ali, tendo que exercer uma função que não te faz feliz e não te completa? Agradeça pela oportunidade de ter uma base para te impulsionar rumo aos teus sonhos!
As vezes precisamos dar algumas voltas para encontrar nosso rumo.
Sabia, lá no fundo, que tudo era uma questão de tempo. O melhor que eu podia fazer? Aproveitar todo suporte, apoio e conforto para me aprimorar e me fazer pronto para o momento certo. Até que ele chegou.
A impermanência me ensinou que só temos o momento presente, e que cabe a nós escolher qual a qualidade desse momento. O que você faz com a sua vida, a cada instante, é o que você escolheria se fosse seu último momento aqui na terra?
Caso a resposta para essa pergunta seja negativa, talvez esteja na hora de mudar.
Vai dar medo? Vai!
Vai ter insegurança? Vai!
Porém, o que vale mais: um dia vivido na sua totalidade ou 100 anos vivendo sem estar viva?
Cada um tem seu caminho, e se você tem se desviado ou adiado caminhar no seu por qualquer questão interna ou externa que seja fruto de medo ou falta de confiança em si mesma e no seu caminho, só existe uma possibilidade: aceitação que algumas coisas terão que chegar ao fim para que outras possam começar, e que nem tudo vai ser da forma que você gostaria, mas vai ser do jeito que tem que ser.
São 3 os pilares para um caminhar mais leve na vida: Aceitação, confiança e amor.
Aceitar que nada é por acaso, que cada um tem seu caminho e que não temos controle de nada a não ser como escolhemos lidar e interpretar cada coisa que nos acontece.
Confiar no próprio caminho, na vida, na existência e em cada passo dado ao longo da jornada, que quando bem dado e com propósito, irá resultar em uma bela oportunidade de aprendizado e evolução.
Amar a oportunidade de estar viva e de se viver a cada instante, como se só ele existisse.
Tudo passa. O bom e o ruim, o agradável e o desagradável, a alegria e a tristeza, o prazer e a dor.
Sabendo disso, agora te pergunto: o que você está preparada para deixar morrer, para que sua vida possa renascer a partir da sua verdade?
Caso não esteja, o que te falta?
Sempre com amor,
Gustavo Engelmann





Lendo o texto,me veio imediatamente a resposta de Mãe Maria a uma inquietação de Chico Xavier: tudo passa!